Sunday, February 05, 2006

o senhor que foi viver para antioquia

sim, ele que, dizendo-se cansado, inveja causava a uma pessoa.
não eu. eu nada sou e mais no que toca a estes assuntos de lágrimas. mas são coisas várias as que me afirmam a certeza do que lhe digo: triste, não. ansioso? sim, muito. pois muito deve aos glaciares que por ele esperaram. e pois que os derreta agora com tudo o que leva nos bolsos. pedras que não atirou à cara de ninguém. pós que ficaram restos de calor e que gelaram nas suas mãos que gelaram nas minhas. mãos que leva à cara, a dele, mãos que não largam silêncios nos seus olhos. diz tudo, disse quase nada. que eu bem sei, quando se cala, que os meus joelhos tremem. são efeitos das pedras que são pó que tem nos bolsos que tem na pele que já não sai. ansioso, sim, e eu feliz. os dois de dor no peito que afinal é do ar a mais. de amar a mais.

Thursday, February 02, 2006

rua das rosas

picture by her favourite photographer

Saturday, January 28, 2006

their little corner of the world

fotografia do jp

a coisa mais bonita

és tu quando segues atrás da curva do teu peito. a coisa mais bonita a seguir a esta és tu a desfocar o caminho e as minhas mãos, as minhas mãos quando encontram na tua as coisas que li em muitos livros, e mais. a terceira coisa na lista das coisas mais bonitas és tu quando não olhas para mim e eu estou a sorrir.

Saturday, January 21, 2006

mais que chuva, tu és neve

e por isto devias escrever histórias.
mas não queres porque sabes de cor que os narradores são os mais fracos detentores de mentiras.
empresta-me o teu coração só por uma hora pequenina que eu quero mostrar-te como a neve cai limpa entre os parágrafos das histórias que não contas.

Wednesday, January 18, 2006

surpresa

se soubesses onde fui encontrar
uma palavra paixão igual a mim
rebolavas de nervoso miudinho e é
por isso que eu não digo a ninguém.
rezo assim baixinho sempre que te vais embora:
- eu fui o amor todos os dias enquanto não chegavas. e como
se isto não bastasse, digo mais:
- ainda bem.

hoje sou ela

Tuesday, January 17, 2006

inicial

entrega sempre a tua beleza
sem cálculo, sem palavras.
calas-te. e ela diz por ti: eu sou.
e com mil sentidos chega,
chega finalmente a cada um.

Rainer Maria Rilke in O Livro das Imagens, Relógio D'Água, 2005

Friday, January 13, 2006

prece

pé-de-meia ou pé descalço
imensamente orgulhoso ou inclinado de amor
cadeira eléctrica
coveiro ou dançarino ao vento
o mesmo vento ainda fedendo a porcos
rosas ou o pólen que nos faz tossir
cruel fantástico sem nada que se lhe compare

não precisar de salas de operações
estar a salvo de todas as doenças
amar sem excepção
ser um santo em qualquer forma

patti smith, in witt (versão livre de alexandre vargas), assírio e alvim, 1983

Tuesday, January 10, 2006

poisa a tua boca na minha, mas deixa a minha língua livre para te falar de amor

in a voz secreta das mulheres afegãs, compilação de sayd bahodine majrouh, traduzida por ana hatherly, cavalo de ferro

Friday, January 06, 2006

Thursday, January 05, 2006

sinto, digo

Sente, diz que o seu quarto é mais pequeno quando está sozinho, mais que a raiva contra as paredes ou que os gritos que apagou com as mãos e os dentes. Mas eu estava lá. A autoridade branca do papel, da luz, da pele tanta, da parede que apertava devagarinho como o sopro pequeno, pequeno. Foi pequeno o alimento, a vitamina. tic, tic, tic, tic. Sem mais, sim. Sem-mais-não. Sem parar porque não pode parar mas que queria. Correr. Em câmara lenta as lágrimas da chuva minha a evaporar o seu medo de mostrar a pele. Em câmara lenta o que disseste e o que eu ouvi. Em câmara lenta o que não disseste e o que eu já sabia. Tocam-nos de todos os lados as chamadas à cena: 'ao palco, por favor'. Sobe a cortina e está nua num vestido bonito, mas lá dentro, às voltas, as coisas são despidas, porque o quarto será sempre mais pequeno.
Sinto, digo.

Monday, January 02, 2006

para comemorar o centésimo post

seduzir, helena almeida

conversa à mesa

morremos de vez, é certo.
por isso, a vida é uma coisa,
de que acontece, ou não, gostar.

mas, sendo assim, porque me acontece
gostar do mato vermelho,
da erva cinzenta e do céu verde-cinza?

e que mais? mas, vermelho,
cinzento, verde, porquê, especialmente?
não foi isso o que eu disse:

não esses, especialmente. apenas, esses.
gostamos do que acontece gostarmos.
gostamos da maneira como o vermelho cresce.

não tem nenhuma importância.
acontecer gostar é uma das maneiras
que as coisas têm de acontecer.


wallace stevens, opus posthumous
in antologia, wallace stevens, relógio d'água, 2005

Friday, December 30, 2005

I can see clearly now the rain has come.

Tuesday, December 27, 2005

Sunday, December 25, 2005

je vous écris du bout du monde

penitência silenciosa? eu diria vingança,
mas há quem não pense assim.
talvez seja mais lágrima em sentido ascendente
- contorna o nariz e volta para o canto do olho brilhante
(e vai fazendo cócegas pelo caminho).

é o riso, a gargalhada,
são as plantas dos pés.
são os dedos apontados
o 'pede desculpa, dir-te-ei quem és'.
são as pestanas da Greta Garbo, as vítimas,
os cúmplices e o anestesiado
são os índios, os cowboys,
os palhaços e o Sá-Carneiro
são fotografias a cores, o vinho
o tiro certeiro.

Thursday, December 22, 2005

hoje a rua cheirava a ti

como se andasses sempre vinte e sete passos à minha frente

Monday, December 19, 2005

now i know why:

i spoke high when i spoke love

Sunday, December 18, 2005

oitenta e sete

quis vê-lo uma vez mais. uma última vez. outra última vez. e então, depois de o ouvir cantar, deu vinte e sete passos em direcção às escadas que desceu a saltar. diz quem a viu sair que vinha a sorrir.

nós gostamos é de super bock

Sunday, December 11, 2005

efabulações

sugestão de saudade, mas só mesmo sugestão, porque, na verdade, não se sente nada.
senta-se no chão e balança-se de sul para norte, a contar as gotas de chuva que cairiam do céu se não estivesse a fazer sol.
ah, flácidos domingos.

Thursday, December 01, 2005

o estrangeiro

- de quem gostas mais, diz lá, homem enigmático? de teu pai, de tua mãe, ou de teu irmão?
- não tenho pai, nem mãe, nem irmã, nem irmão.
- dos teus amigos?
- eis uma expressão cujo sentido até hoje ignorei.
- da tua pátria?
- não sei a latitude a que está situada.
- da beleza?
- amá-la-ia de boa vontade, divina e imortal.
- do oiro?
- odeio-o tanto como vós a deus.
- então que amas tu, singular estrangeiro?
- amo as nuvens... as nuvens que passam lá longe... as maravilhosas nuvens!

charles baudelaire, in o spleen de paris